Homenagem a Gilmar Mascarenhas de Jesus (1962-2019)

Núcleo de Estudos em Espaço e Representações

Homenagem a Gilmar Mascarenhas de Jesus (1962-2019)

Gilmar, simplesmente Gilmar

  

Um homem charmoso, de sorriso fácil. Um olhar horizontal e reflexivo. Uma voz suave e pausada, que, em baixo volume, expressava suas leituras de mundo, mesclando a fala com gestuais constantes com braços e mãos. Uma fluência verbal as vezes descontínua, todavia, sem nunca perder a elegância. Como era bom ouvir os seus comentários. Gilmar gostava de levantar problematizações que poderiam alimentar reflexões ou novas incursões investigativas. Aliás, ele sempre buscou inovar, tanto do ponto de vista da opção pelos temas de estudos e pesquisas, quanto sob a ótica das abordagens para esses temas. Futebol e Geografia? Seria possível esse diálogo? Muitos teriam dificuldades de ver as várias possibilidades de leitura geográfica da mais popular modalidade esportiva do Brasil; Gilmar não. Ele mesclou muito bem duas grandes paixões. Será que Gilmar olhava o futebol a partir da abordagem geográfica ou se encantava ainda mais pela Geografia a partir das dimensões espaciais das práticas futebolísticas? Essa questão, problematizada dessa forma, expressa uma perspectiva binária que não coaduna com o olhar geográfico amplo de Gilmar. Com certeza, ele questionaria a natureza dualística da pergunta. Essa problematização, expressa dessa forma, não seria suficiente para captar a diversidade e complexidade das múltiplas relações entre a Geografia e práticas esportivas, com especial ênfase no futebol, que Gilmar conseguia enxergar, refletir e textualizar analiticamente, indo além das leituras superficiais e simplistas.

Com a voz pausada e em baixo volume, Gilmar foi um crítico dos mega-eventos gestados verticalmente, como a copa do mundo de futebol e os jogos Olímpicos, que elitizam, segregam. No entanto, não se descuidou das práticas esportivas na capilaridade social. Do futebol de várzea, nas periferias urbanas, ao futebol espetáculo nas/das grandes cidades. Gilmar abordou, de forma ampla, as dimensões transescalares do futebol. Analisou estádios de futebol para além da dimensão físico-arquitetônica e urbanística, tematizando de forma contextualizada as territorialidades de várias torcidas e as questões políticas imiscuídas nas linhas e entrelinhas do futebol.

Gilmar era respeitado pelos colegas da Geografia e de outras áreas das Ciências Humanas e Sociais: professor qualificado, pesquisador de uma temática instigante, interdisciplinar e desafiadora; produtor de publicações consistentes e gostosas de ler. Uma breve leitura do seu currículo comprova a dimensão alargada e pluritemática do futebol nos seus textos. Algumas conversas com muitos dos seus alunos poderão revelar as várias virtudes do docente inquieto, crítico, provocador e, ao mesmo tempo, da fala macia e suave. Todavia, nem o currículo lattes, nem os depoimentos sobre as práticas docentes serão capazes de expressarem o homem Gilmar. A dimensão humana dele e a sua energia positiva sempre nos empolgaram. Um ser humano de grande coração; simples, sorridente e, ao mesmo tempo, motivador. Algumas vezes, sentado ao seu lado, em alguns eventos, notava claramente da mudança nas expressões faciais quando não concordara com o palestrante.  Ele virava-se rapidamente para o interlocutor, sentado ao seu lado, abria os braços e, com um olhar sério, questionava: “Ué? Como assim?” Postura professoral; crítica, questionadora. No entanto, mesmo em uma situação de discordância ele se manifestava de forma tranquila, respeitosa. Gilmar não perdia o charme e a esportividade nem mesmo diante de uma eventual situação que exigia uma postura questionadora mais consistente.

O uso da bicicleta, no cotidiano caótico de uma grande metrópole, com sérios problemas de mobilidade, não se constituía apenas em uma opção por um modal esportivo específico para exercícios físicos e deslocamento! O perfil de Gilmar nos faz constatar, de forma clara e expressiva, que o ciclismo era também um ato de rebeldia em um contexto urbano altamente automobilístico. A prática ciclística para ele era a cotidianização do ativismo esportivo, dimensionado a partir de uma perspectiva política, totalmente relacionada às suas arguições discursivas. As múltiplas paisagens que se alternavam nos seus itinerários lhe inspiravam não a partir de um ponto(s) solto(s), no sentido topológico estanque. A multidimensionalidade paisagística das várias circularidades geográficas de Gilmar, o faziam viver grande parte da sua vida nas interfaces; enriquecendo seu repertório temático investigativo. As partidas de futebol do seu time do coração e os itinerários (multi)lugarizados do ciclismo, transbordavam Geografia no contexto de práticas esportivas que não estavam descoladas mecanicamente das suas práticas cotidianas. As vivências esportivas faziam parte da sua vida: em casa, nas Universidades, nas ruas; nos múltiplos espaços por onde ele circulava. O esporte era contextual na sua vida; não era algo a parte. Acho que por isso que as ruas do Rio de Janeiro, notadamente as periféricas, não saiam dele. Esse geógrafo suburbano que pesquisou feiras livres em áreas periféricas e que circulou por transportes coletivos diversos, vivenciando no cotidiano urbano as mazelas sociais de um país desigual, se tornou o maior especialista em Geografia dos esportes do Brasil! Gilmar criticava duramente os segregacionismos e a gentrificação dos esportes em diversos espaços onde ele atuava ou circulava: nas periferias (onde viveu e pesquisou); nos meios acadêmicos dentro e fora do Brasil; nos grandes equipamentos esportivos edificados para o futebol ou para jogos olímpicos espetacularizados, notadamente pela grande mídia. Seus temas de pesquisa e crítica faziam parte das suas circularidades e vivências. Esse conjunto de situações fazia com que seus textos fossem didáticos, agradáveis de ler e, ao mesmo tempo, consistentes na arguição, expressando uma harmonização dialógica entre teoria e empiria. Dentre os vários ensinamentos de Gilmar para os seus companheiros e companheiras de trilhas geográficas, um dos mais importantes talvez seja “viver a Geografia e geografizar o viver”. Essa sua postura expressava claramente a dimensão contextual e vivencial da Geografia na sua vida, dimensionada a partir das práticas esportivas!

Bravo Gilmar! A Geografia brasileira agradece!

 

Janio Roque Barros de Castro

3 comentários

  1. Paula Mascarenhas disse:

    Belíssima, homenagem!! De todas as que li, esta foi a bela! Ele foi um ser humano incrível, único e extremamente amoroso e amado! Muito merecido tudo isso! Gratidão enorme por honrarem a memória de papai!

  2. Edinelia Souza disse:

    Linda homenagem ao grande Gilmar Mascarenhas. Parabéns querido colega Jânio Roque!!

  3. NEIDE MASCARENHAS DE JESUS disse:

    Lindíssima homenagem ao meu querido irmão. Ele, sem dúvida, foi único, e continuará perpetuando amor em nossos corações. Obrigada Janio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Colóquio Nacional

Confira mais Informações sobre o evento: